Arquivo para a categoria 'Resenhando'

Antonio

Família a gente não escolhe, já nasce nela e pronto-acabou. Às vezes a família é grande, outras vezes é agitada, briguenta, mas família legítima mesmo é aquela onde sempre existem problemas. E a família do Antonio não vai ser diferente.

O cotidiano da família Kremz é no mínimo inusitado: tudo torna-se válido se a argumentação for coerente. Portanto, na infância do avô de Antônio, rolou de tudo. E cada um cresceu a seu modo, um mais conservador, outra mais aberta a novas experiências, e ali, meio perdido, ia Teodoro, o avô de Antonio. A vida de Teodoro leva-o a loucura, assim como também tinha acontecido com seu pai, Xavier.

Mas a intriga da história não é o seu final, mas o entendimento dos acontecimentos. O tom do livro é de conversa. Existe um narrador, Benjamin, que não emite uma palavra, é o que eu chamei de “narrador-ouvinte”, que tenta compreender a história de sua família agora no momento em que vai ser pai. Benjamin teme que a loucura seja algo hereditário e tenta, ao conversar com sua avó, já acamada, sobre o que fez com que sei pai e seu avô enlouquecessem.

A estrutura da narrativa é interessante, são como conversas alternadas. E assim é possível se sentir igual a Benjamim, acompanhando a história do jeito que lhe é contada, juntando as peças do quebra-cabeça como ele mesmo faria.

Pra quem preferir, vale fazer uma breve genealogia da família no começo da história. Mas o grande ponto da narrativa é entender que os conflitos são capazes de afetar até mesmo quem não fez parte (diretamente) deles.

antonio Antonio
de Beatriz Bracher
192 páginas
Editora 34
four-stars.gif
R$28,00

Gaiola da classe média

Uma narrativa que se passa no atribulado ano de 1992, sem quase citar os problemas políticos que assolaram o Brasil em tal momento, assim é “A Gaiola de Faraday” de Bernardo Ajzenberg.
A história, que de Faraday tem muito pouco, usa a estrutura de uma novela “global”: cada capítulo aborda um núcleo, como se fosse um take, e logo muda-se para outro prisma da mesma problemática. Apesar de alguns (muitos!) desdenharem as novelas, esse tipo de estrutura é interessante porque acelera o ritmo de leitura e de certo ponto promove um suspense, mesmo que bem leve.

O enredo é curioso. Um pai que resolve sair de casa, mas que continua acompanhando a vida da família, espionando, procurando saber como estão os filhos e a mulher. Entretanto o pai não tem um rumo a seguir, ele simplesmente foge dos seus problemas quando eles se tornam um fardo pesado demais.

No encontro entre alunos e autores promovido pela professora Maria Eugênia, Bernardo Ajzenberg nos contou como o jornalismo influenciou o seu lado literário:

Uma boa história para compreender os pequenos grandes problemas da classe média paulistana.
gaiola

A Gaiola de Faraday
de Bernardo Ajzenberg
129 páginas
Editora Rocco
two-stars.gif
R$23,00

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Catrâmbias!, um elogio à loucura eduditista

Para meu estudo de prosa ficcional contemporânea, Catrâmbias é um marco. Não fosse isso, seria para mim, como simples leitora, um “arremesso”. Iria arremesá-lo pela janela sem dó nem piedade. Ao estilo do autor, Evandro Affonso Ferreira, defrenestrá-lo-ia prazeirosamente.

Catrâmbias conta a história (conta?) de uma senhora que resolve voluntariamente internar-se em um hospício, mesmo não tendo nenhum problema mental ou psicológico que a faça necessitar de apoio em tal instituição. Lá a senhora presencia e nos conta os problemas de outros internos, muitas vezes tendendo a analisá-los. Falando assim parece fácil; e é. O que não é nada simples nessa história toda é o palavreado utilizado pela senhora para tratar de tudo isso.

Evandro Affonso Ferreira é fascinado pela sonoridade das palavras, principalmente daquelas desconhecidas do público. O próprio título da obra só pode ser compreendido com uma consulta ao dicionário. Catrâmbias, no contexto da obra, é uma interjeição como “Ora, bolas!”.

Os alunos da matéria de Prosa Ficcional tiveram inclusive a oportunidade de encontrar com o autor e fazer perguntas. Entretanto, em diversas de suas respostas, Evandro foi categórico: não se preocupa com o leitor, faz a literatura para ele mesmo, como forma de diversão.

Assim, pra mim ficou evidente que o enredo quase insípido nada mais é do que uma desculpa para que a narradpra continue erudita e quase ininteligivelmente a sua superficial história sobre a loucura. A senhora que narra Catrâmbias também é uma visão de mundo de Evandro. Entretanto, ao que parece, esse eruditismo só se expressa de forma literária, pois na conversa com os alunos ele foi bastante direto, específico e básico, comparado com a riqueza de palavras de uso incomum encontradas em sua obra.

Quem sabe é uma loucura erudita que, por meio da literatura, tenta aliviar-se…

Catrâmbias

Catrâmbias!
de Evandro Affonso Ferreira
78 páginas
Editora 34
Star
R$25,00

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Jacqueline S Lafloufa

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